Eu sou Rafael dos Prazeres. Minha história com a música começou de um jeito inesperado, atravessada por uma doença. Quando eu tinha cerca de 16 ou 17 anos, fui diagnosticado com tuberculose. Cheguei a pesar aproximadamente 47 quilos e precisei ficar um período reservado, em tratamento, usando meus próprios objetos separados — meu copo, minha faca, minha colher. Foi nesse momento de fragilidade que a música apareceu como possibilidade de vida.
Uma médica do Programa Médico deFamília da região da Grota e da Igrejinha, junto com um professor, me indicou um programa de aulas de música que estava começando. Eu não estava fazendo nada naquele período, ainda me recuperando, e resolvi participar. Foi assim que entrei em contato com a música. Comecei em um projeto social na Grota, tocando flauta doce, e logo percebi que aquilo tinha mudado alguma coisa dentro de mim.
Em 2001, comecei a estudar flauta doce. No ano seguinte, em 2002, passei a replicar o que aprendia. Sempre entendi essa prática como uma forma de multiplicação social: a gente aprende e já tenta passar adiante para outro aluno. Foi nesse movimento que minha vida musical começou a ganhar direção.
Em 2003, cheguei ao Programa Aprendiz como monitor de flauta doce. Minha primeira experiência foi no Morro do Céu, em uma vaga que surgiu ali. Eu ainda não tinha formação acadêmica; vinha como aluno de escola de música e educador social. Foi no Aprendiz que minha formação começou a se estruturar de verdade. Dei aula, aprendi dando aula, convivi com professores, alunos e famílias, e fui entendendo que a educação musical era também uma forma de construir vínculos.
No Morro do Céu, trabalhei como monitor de Leandro Mendes e conheci muita gente que depois seguiria caminhos importantes dentro do próprio Aprendiz. Ali também entendi a força das comunidades, das escolas e das famílias no processo de formação dos alunos. Muitas mães acompanhavam as crianças, ajudavam no deslocamento, articulavam a presença dos filhos e faziam isso por pertencimento, por acreditarem no programa.
Desde cedo entendi que o Aprendiz não era um conservatório tradicional. Nosso trabalho sempre exigiu escuta. Antes de chegar com um repertório pronto, era preciso entender a comunidade, o que os alunos ouviam, o que desejavam, o que conheciam e o que ainda não tinham tido oportunidade de conhecer. Em muitos lugares, os alunos nunca tinham visto um violino ou uma flauta. Às vezes, ouviam que aquilo não daria em nada. Nosso desafio era mostrar que aqueles instrumentos também podiam pertencer a eles.
Sempre procurei negociar repertórios. Se os alunos gostavam de funk ou gospel, eu não via isso como algo a ser negado. Pelo contrário: era uma porta de entrada. Eu dizia que poderíamos trabalhar uma música que eles queriam, desde que também experimentássemos outras. Fazíamos trocas. Eu apresentava músicas antigas, explicava sua história, falava de compositores e épocas, e esperava o retorno deles. Muitas vezes, uma música que parecia “velha” passava a fazer sentido depois que eles a ouviam em outro contexto.
Para mim, uma das funções do Aprendiz é ampliar repertórios. Não se trata de dizer que a música do aluno não serve, mas de mostrar que, além dela, existem muitas outras possibilidades. O diálogo com os alunos sempre foi fundamental. Perguntar o que eles querem tocar, entender seus territórios e apresentar novas linguagens são partes do mesmo processo pedagógico.
Com a expansão do Aprendiz, vieram muitos desafios. O programa saiu de poucas escolas, cresceu, chegou a dezenas de unidades e passou a atender milhares de alunos. O deslocamento sempre foi uma questão. Também foi preciso construir uma relação de confiança com as direções escolares, mostrando que o Aprendiz não era uma ação passageira, mas uma política duradoura, capaz de trazer benefícios para a escola e para a cidade.
Como supervisor de iniciação musical, meu principal desafio é manter um grupo falando a mesma língua. São muitas escolas, muitos professores e muitos alunos. É preciso garantir um repertório comum, uma linha de trabalho compartilhada, sem apagar a liberdade didática de cada professor nem a negociação com cada território. A ideia é que alunos de escolas distantes possam se encontrar e cantar juntos, mesmo sem ensaio prévio, porque compartilham uma base construída coletivamente.
As Casas do Aprendiz também representam uma etapa importante. Elas não conseguem receber todos os alunos das escolas, nem precisam ter essa função. Para mim, elas funcionam como espaços de continuidade, aperfeiçoamento, invenção pedagógica e irradiação. Um aluno pode começar na escola, seguir para a Casa, desenvolver-se, talvez virar músico, talvez escolher outra profissão. Em qualquer caso, se tornou um cidadão mais preparado, mais sensível e mais consciente de suas possibilidades.
Ter um instrumento também faz toda a diferença. Quando comecei, muitas vezes eu ia para a aula sem instrumento próprio. O aprendizado ficava mais lento. Quando o aluno leva um instrumento para casa, cria intimidade, estuda mais, mostra para a família, sente orgulho. Imagino a felicidade de uma família ao ver o filho chegar com um violino, uma flauta ou outro instrumento. Isso produz pertencimento e muda a relação do aluno com a música e com o próprio território.
Lembro de alunos do Morro do Céu que foram assistir a um musical no Rio. Para alguns, atravessar a Ponte Rio-Niterói já era uma experiência extraordinária. Aquela travessia dizia muito sobre pertencimento: eles podiam ocupar outros espaços, assistir a espetáculos, tocar em teatros, estar em lugares onde talvez nunca imaginassem estar. O Aprendiz abre portas para a música, mas também para a cidade, para a beleza, para o direito de ser visto e ouvido.
Acredito que o Aprendiz ainda precisa ser mais reconhecido como projeto da cidade. Ele está presente em muitas escolas, alcança muitos territórios e forma não apenas músicos, mas sujeitos. Precisa ocupar mais praças, ruas, teatros e equipamentos culturais. Os alunos precisam de palco, de reconhecimento, de oportunidades para mostrar o que constroem. A rua também pode ser um grande equipamento cultural.
O Aprendiz me ensinou a olhar o outro, a respeitar trajetórias, a entender a importância da empatia e a reconhecer que a educação musical pode transformar vidas sem perder a alegria. Mesmo como supervisor, continuo dando aula, porque não quero abrir mão desse contato. Gosto de trabalhar com aquilo que escolhi e sigo feliz por fazer parte dessa história. Às vezes há crises, dificuldades e desafios, mas sigo em frente porque acredito no que faço.
Se hoje sou quem sou, é porque a música chegou até mim num momento difícil e porque o Aprendiz me deu espaço para transformar essa chegada em caminho, trabalho, pertencimento e vida.



